Lugar ganhou ares de uma cidade grande
Boa Viagem 300 anos - Do pequeno núcleo urbano, do início do século 20, à realidade de região mais adensada da capital
No início do século 20, Boa Viagem era praticamente desabitada e tinha apenas um pequeno núcleo urbano composto por cerca de 60 casas de construção regular e uma capela. Hoje é uma das áreas mais populosas da cidade com mais de 100 mil habitantes e uma densidade de 136 pessoas por hectare. O bairro se tornou um dos principais cartões-postais da capital pernambucana e responde por mais de 50% do mercado imobiliário. Uma de suas principais características é a sua posição ao longo do Oceano Atlântico. A antiga zona balneária tem o metro quadrado mais caro da cidade e é endereço de imóveis de luxo.
O crescimento de Boa Viagem interferiu diretamente no prolongamento das áreas vizinhas. O bairro parece se esticar e espalha seus tentáculos construtivos em todas as direções. Segundo o professor de Geografia da UFPE, Jan Bitoun, os bairros de Piedade e Candeias, em Jaboatão dos Guararapes, só existem na concepção atual, por causa de Boa Viagem. "Como a oferta de espaço foi ficando cada vez menor, o segmento imobiliário foi se esticando para os lados e assim surgiram os bairros de Piedade e Candeias", explicou.
O vizinho pobre de Boa Viagem, o bairro do Pina, começa a resgatar seu espaço de origem e ganha investimentos também no segmento imobiliário. Segundo Bitoun, no entanto até hoje ainda há muita gente que mora no Pina, mas diz que é Boa Viagem. "Até as propagandas que anunciavam investimentos, indicavam como se fosse Boa Viagem e não Pina", ressaltou.
Outra característica do bairro é de servir como centro de convergência. Segundo Bitoun, o Recife tem duas áreas centrais: o centro propriamente dito, nos tradicionais bairros de Santo Antônio, São José e Bairro do Recife e o segundo Boa Viagem, do ponto de vista da Região Metropolitana. "É um ponto de convergência, inclusive de quem vem de fora", ressaltou o professor.
Não é por acaso que o bairro tem uma estrutura de cidade e atrai visitantes de todos os lugares. Além de abrigar o maior centro de compras da América Latina, o Shopping Center Recife, também tem bancos,escolas, hospitais, hotéis, supermercados, farmácias, bares, restaurantes e é próximo ao Aeroporto Internacional dos Guararapes/Gilberto Freyre.
Ex-morador do Bongi, o servidor público Paulo Ribeiro, 38 anos, realizou o sonho da casa própria em Boa Viagem. A única ressalva na nova moradia é a violência. "Nós estamos ao lado da favela da Xuxa. O síndico daqui já foi assaltado na noite de natal. A insegurança é o único inconveniente. Gosto da praia, do shopping e da gastronomia local", ressaltou. Para os irmãos Raquel e João Guilherme Aragão, moradores há mais de 20 anos de um prédio na beira-mar, não há outro lugar melhor. "Eu adoro morar aqui. Tem tudo que eu preciso e essa vista maravilhosa, não troco isso aqui por nada", afirma Raquel da varanda do apartamento.
Pobreza é o avesso do cartão-postal
Um dos maiores equívocos do crescimento de Boa Viagem, segundo o professor Jan Bitoun, que participou da elaboração do Atlas do Desenvolvimento do Recife, foi ter ignorado a pobreza. "O aspecto preocupante é que a modernidade não ajudou a desenvolver as desigualdades sociais e Boa Viagem expressa isso de forma muito forte", ressaltou. As comunidades pobres, que tradicionalmente ocupavam áreas próximas dos manguezais, foram sendo encolhidas, mas continuam lá. "Eles já estavam nos mangues, o bairro foi que avançou para cima deles", afirmou.
O ex-carroceiro Luís Abel Diogo, 50 anos, lembra que ocupou a área do mangue quando a Avenida Domingos Ferreira ainda não existia. Agora assiste à proximação dos prédios. "Eles querem se ver livres da gente. Chegamos aqui primeiro, mas os empresários querem tomar o que nós construímos com muito sacrifício", desabafou. Luís Abel já foi comunicado que o local onde construiu sua casa, na comunidade Paraíso, terá que ser desocupado por causa da Via Mangue. "A gente não sabe o que vai acontecer. Não queremos auxílio-moradia porque eles podem deixar de pagar e a gente fica na rua", ressaltou.
Previsão - O presidente da Empresa de Urbanização do Recife (URB), Amir Schvartz, disse que vão ser construídos três conjuntos habitacionais para receber mais de 900 famílias, que hoje habitam a marginal do mangue. "A idéia é fazer a retirada apenas quando as habitações estiverem prontas, mas se houver necessidade de iniciar as obras antes elas irão para o auxílio-moradia", declarou.
A previsão é que sejam construídos os conjuntos habitacionais nas próximidades da antiga fábrica da Bacardi, outro em um terreno próximo à Rua Eduardo Wanderley e terceiro no Residencial Boa Viagem, nas proximidades do Viaduto Tancredo Neves. "Nunca houve uma preocupação de inserção dessas comunidades. É mais fácil se fechar nas casas do que encarar o problema de frente. O único ponto comum entre eles é a rua, onde os moradores de classe média se sentem vulneráveis, diante da pobreza, ou então na praia, que aliás éo único espaço democrático para ricos e pobres", analisou Bitoun. Nos dados divulgados pelo Atlas, levando-se em conta toda a Zona Sul, calcula-se uma média de 120 mil habitantes com níveis sociais médios e elevados e 80 mil na linha de pobreza (incluindo Pina, Brasília Teimosa, Ilha de Deus, Entra Apulso e Borborema).
Novo Plano Diretor deve conter adensamento
Se não é possível mudar o que já existe, deve-se pelo menos evitar que a situação fique ainda pior. O novo Plano Diretor, que está para ser votado na Câmara municipal do Recife, promete reduzir o coeficiente construtivo ( número que multiplicado pelo tamanho do terreno indica até onde é possível construir), de quatro para dois, no bairro de Boa Viagem. Para se ter uma idéia do que isso significa, basta comparar os coeficientes construtivos na década de 1970, quando o índice de 0,9 passou para 3,8. Na prática, a área construída pulou de 394 mil metros quadrados para a incrível marca de 2,5 milhões de área construída num período de 20 anos. Depois disso, o bairro já ganhou mais 2,3 milhões de área construída, sendo hoje um dos bairros mais adensados da cidade.
O século 21 deverá por um freio na efervência do mercado da construção civil em Boa Viagem, tanto pela escassez de espaço como pela limitação do coeficiente construtivo. Segundo o arquiteto e assessor da Secretaria de Planejamento do Recife, Milton Botler, a Boa Viagem do futuro vai exigir investimentos cada vez maiores se não houver uma descentralização do mercado imobiliário para outras áreas do Recife, que já dispõem de infra-estrurura.
"O plano diretor tem a opção de coeficientes mais elevados em outras áreas menos adensadas como estímulo para o mercado imobiliário. Boa Viagem não comporta mais um crescimento com a dimensão verificada nos últimos 20 anos. É um padrão de adensamento insustentável", alertou Botler.
Para o presidente da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), Eduardo Carvalho, o bairro tem ainda um forte apelo para o mercado, detendo 40% dos investimentos do setor. Com o novo Plano Diretor, o coeficiente construtivo reduz na beira-mar em pelo menos 50% e no restante do bairro em 25%. "Reduz muito, mas Boa Viagem é um bairro muito dinâmico que oferece muitos serviços e tem ainda bastante fôlego", destacou.
De sítio a bairro chique
Boa Viagem 300 anos - Cercada de polêmicas, desde a sua criação, a área mais valorizada do Recife ainda tem muitos desafios
Uma das intervenções urbanísticas mais polêmicas do Recife não foi a reforma do porto ou a abertura da Avenida Dantas Barreto. O fato que gerou prolongadas discussões, nos meios político e social, ocorreu há 83 anos com o anúncio da abertura da Avenida Beira-Mar, hoje Avenida Boa Viagem. Na época, 1924, a obra era considerada cara e desnecessária, por se tratar de uma área não habitada, diziam os críticos. No aniversário dos 300 anos do início da povoação do bairro, outra polêmica volta a movimentar diversos segmentos da sociedade e Boa Viagem entra novamente no centro das discussões: o projeto do parque Dona Lindu, assinado pelo famoso arquiteto Oscar Niemeyer, com um custo previsto de R$ 20 milhões para implantação.
Assim como a avenida, o parque recebe críticas com relação ao tamanho do investimento e ao formato proposto pelo arquiteto. O fim desta discussão ainda não se sabe, o certo é que o bairro conseguiu impor seu próprio ritmo e de um sítio acanhado passou a ser um dos pontos mais chiques do Nordeste, com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) superior ao da Noruega.
Quem poderia prever isso há oito décadas? Assim como não se pode prever se o parque desenhado por Niemeyer, será ou não um dos cartões postais da cidade nas próximas décadas. Boa Viagem, não chega a ser uma obra do acaso, mas muitos fatores contribuíram para ela ser o que é hoje, tanto na transformação em um bairro moderno como também na problemática social.
O arquiteto José Luís da Mota Menezes, um dos maiores estudiosos da arquitetura urbana do Recife, destaca que as construções se projetaram inicialmente para Boa Viagem porque a área do Pina, que geograficamente estava mais próxima, acabou sendo preterida devido ao despejo dos resíduos decantados da estação de tratamento da Compesa, no Cabanga, diretamente na bacia do Pina. "Devido ao mau cheiro, as pessoas faziam as construções cada vez mais distantes na direção de Boa Viagem", relatou Mota.
Também poderia ser atribuído ao acaso, a proximidade do bairro com a base aérea americanado Ibura, instalada para fazer a defesa do Atlântico Sul, e que mais tarde passou a ser o aeroporto do Recife. Segundo o professor do Departamento de Geografia, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Jan Bitoun, o aeroporto teve um papel fundamental no desenvolvimento do bairro ao ponto que o trecho entre a Avenida Conselheiro Aguiar e a Imbiribeira, considerada uma área suburbana, por causa do manguezal, foi aos poucos aterrada e hoje é endereço de grandes empreendimentos como o Shopping Center Recife. "Aquela era uma área que ninguém queria e hoje é muito valorizada e ela cresceu em direção ao aeroporto", ressaltou Bitoun.
O modo de vida dos americanos, que invadiram nossa praia nos anos 40 e 60, também trouxe influências para o bairro. "Os americanos tinham o costume de tomar banho de mar e os apartamentos eram modernos com salas amplas, quarto, cozinha e banheiro, essa forma de vida foi assimilada também pelos moradores locais", destacou Bitoun. De acordo com ele, Boa Viagem passou a ser sinônimo de modernidade e se contrapôs às residências tradicionais da burguesia recifense.
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